
Tranco é a reclamação número um que escuto. O cliente chega e diz “o câmbio está dando umas pancadas”. Antes de qualquer coisa eu peço para ele me contar quando acontece, porque isso já diz muito.
Os tipos de tranco que mais aparecem
- Tranco ao colocar em D ou R com o carro parado. Um pequeno toque é normal. Pancada forte, que balança o carro, não é.
- Tranco na troca de 1ª para 2ª, principalmente com o motor frio. É clássico do GM de 6 marchas (Onix, Tracker, Cruze) e aparece bastante no Aisin também.
- Tranco na redução, quando você vai parando no sinal e o carro dá um empurrão perto de parar.
- Tranco no CVT. CVT não tem marcha, então “tranco” nele costuma ser um solavanco na saída ou uma trepidação em baixa velocidade.

O que costuma causar
Na minha bancada, a grande maioria dos casos de tranco cai em três grupos:
- Fluido velho ou contaminado. O fluido do câmbio automático não é só lubrificante. É ele que faz as embreagens internas acoplarem na pressão e no tempo certo. Quando perde as propriedades, a troca de marcha fica seca.
- Problema no corpo de válvulas ou nos solenoides. É o “cérebro hidráulico” do câmbio. Sujeira, desgaste das válvulas ou um solenoide preguiçoso fazem a pressão chegar errada na hora da troca.
- Desgaste interno. Embreagem gasta, pistão com vazamento, buchas. Aí o óleo sozinho não resolve.
Tem também causa de fora do câmbio que confunde: coxim do motor ou do câmbio quebrado faz qualquer engate parecer uma pancada. Sempre olho os coxins antes de condenar o câmbio.
O que você pode conferir sozinho
- Anote quando acontece: frio ou quente, em qual troca, se foi piorando com o tempo. Isso me ajuda muito.
- Veja se tem mancha no chão onde o carro dorme. Fluido de câmbio costuma ser avermelhado ou marrom.
- Repare se a luz do câmbio ou da injeção acendeu alguma vez, mesmo que tenha apagado.
- Olhe a quilometragem e o histórico. Se o carro passou dos 60 mil km e nunca trocou o fluido do câmbio, é o primeiro suspeito.
Uma coisa que eu não recomendo: ficar medindo o nível sozinho. Muitos câmbios hoje nem têm vareta, e os que têm precisam ser medidos numa temperatura específica. Nível medido errado leva a completar sem necessidade, e excesso de fluido também dá problema.
Quando a troca de óleo resolve e quando não resolve
A troca resolve quando o tranco começou aos poucos, o fluido está escuro e gasto, e a leitura com scanner não mostra falha de pressão ou de solenoide. Nesses casos, depois da troca completa (incluindo o fluido do conversor de torque), o câmbio costuma voltar a trocar macio. Em alguns câmbios também é preciso fazer o reaprendizado pelo scanner depois da troca.
A troca não resolve quando já tem desgaste interno. Se na avaliação eu vejo limalha, fluido com cheiro forte de queimado ou falhas de patinação gravadas no módulo, eu falo isso antes. Prefiro perder o serviço do que vender uma troca de óleo que não vai resolver o seu problema.
Por isso a regra comigo é: primeiro a leitura com scanner e a avaliação do óleo, depois o serviço. Essa avaliação é de graça.
Em vídeo
Câmbio dando tranco: quando é óleo e quando não é
Explico na prática os tipos de tranco que aparecem na oficina e o que cada um costuma indicar.